Alguém pode, pelo amor de Deus me dizer o que está acontecendo comigo? Sinto como se já não houvesse vida em minhas veias. Estou sozinha, pálida e os planos insistem em não se concretizarem. Tudo que possuo são as esperanças de um amor vazio e unilateral, meu platônico. Puxa, será que fui tão má assim ao longo da minha vida? Poxa, estou em um apartamento, em uma cidade fria, sozinha e sem amigos. Tudo que tenho são alguns filmes depressivos e a internet. As fotos dele já nem tenho mais coragem de olhar, sinto vergonha. Eu tenho vergonha de mim, sou tão estúpida, idiota!!! Eu acredito na bondade das pessoas e só me ferro. Eu acredito que ainda dá pra sonhar e só me ferro [2]. Poxa, essa sensação tá muito ruim, vc não tem noçao!!! Tenho medo, sinto frio, não tem pra onde ir. Hoje saí pra comprar pão... Caminhei pelas ruas frias, ansiosa por um algo a mais. Um conhecido talvez. Mas não encontrei ninguém, estou sozinha. Isso depois de ter feitos planos de um feriado ao lado do meu amado. Mas eu me esqueci que planos devem ser feitos por um casal e não por uma idiota sonhadora apenas. Eu o convidei para vir pra cá, ficar comigo. Ele nem se deu o trabalho de me responder. Sinto uma dor tão profunda em minha garganta, tô sem ânimo pra tudo. Ou melhor, não quero fazer nada, não sinto vontade de respirar.Quando eu me lembro dos momentos dele aqui comigo, quando ele veio me conhecer, sinto vergonha de mim. Fui tão prestativa e tonta. Tentei fazer tudo certinho, eu queria tanto que tudo desse certo. Mas eu fiz tudo errado, eu sou um erro.
Abandonada pelos amigos, pelo meu amor, pelos meus sonhos. Que me resta? Durmir... só assim eu tenho um pouco de paz e me esqueço de quem eu realmente sou.
Mas poxa, dizem que quem faz as coisas com o coração puro, com bondade, tudo consegue... Tudo que consegui nessa história foi: rejeição, ser ignorada e humilhada. Também me fiz de perfeita pateta.
Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namoro de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, de saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas, namorado, mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda, decidida ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição. Quem não tem namorado, não é que não tem um amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim pode não ter um namorado.

Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho. Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa é quem ama sem alegria. Não tem namorado quem faz pacto de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugida ou impossível de durar.
Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas: de carinho escondido na hora em que passa o filme: de flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada; de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico
ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, fazer cesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Não tem namorado quem não redescobre a criança própria
e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira d'agua, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos e musical da Metro.
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não chateia com o fato de o seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia de sol em plena praia cheia de rivais. Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.

Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo, e quem tem medo de ser afetivo. Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e de medo, ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras, e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada, e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo da janela.
Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como
se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uam névoa de borboletas,
cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteira: Se
você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. Enlou-cresça.
Carlos Drummond de Andrade
Nenhum comentário:
Postar um comentário